O Homem da Meia-Noite: entre a história, a lenda e o imaginário de Olinda


Poucas figuras do Carnaval brasileiro concentram tantos significados simbólicos quanto O Homem da Meia-Noite, tradicional bloco carnavalesco de Olinda. Criado no início da década de 1930, o personagem ultrapassou há muito tempo a condição de simples agremiação festiva e passou a integrar o campo das lendas urbanas pernambucanas. Ao longo das décadas, o boneco gigante - conhecido como calunga - tornou-se um dos principais ícones culturais do estado, reunindo elementos históricos, narrativas populares e interpretações simbólicas que dialogam com a antropologia, a psicologia, a mitologia e a sociologia.

Mais do que abrir oficialmente o Carnaval de Olinda, à meia-noite do sábado de Zé Pereira, O Homem da Meia-Noite ocupa um lugar privilegiado no imaginário coletivo, sendo associado ao mistério, à sedução e à atmosfera liminar que caracteriza as festas populares de origem tradicional.

A lenda do Homem da Meia-Noite

A lenda associada ao Homem da Meia-Noite remonta aos relatos populares que circularam em Olinda antes mesmo da consolidação do bloco. Segundo a tradição oral, um homem alto, forte e elegante costumava aparecer pelas ruas da cidade exatamente à meia-noite. Vestia-se com distinção, usava chapéu, roupas bem alinhadas e ostentava um dente de ouro, característica que se tornaria uma das marcas visuais do calunga.


Esse personagem misterioso era descrito como um sedutor noturno, que rondava casas, pulava janelas e cortejava donzelas, desaparecendo antes do amanhecer. Apesar do comportamento transgressor, não despertava escândalo nem ciúmes, sendo visto mais como uma figura encantadora do que ameaçadora. A recorrência desses relatos teria inspirado a criação do boneco gigante, que passou a representar, de forma material, esse personagem mítico das madrugadas olindenses.

A escolha do nome “O Homem da Meia-Noite” também reforça o caráter lendário da figura. Além da referência direta ao horário de saída do bloco, há registros de que o nome teria sido inspirado em um seriado exibido no antigo Cinema do Carmo, em Olinda, no qual um herói surgia à meia-noite para combater o crime. A combinação entre cultura popular, cinema e tradição oral contribuiu para a consolidação do mito.

Leituras simbólicas e articulações interdisciplinares

Do ponto de vista antropológico, O Homem da Meia-Noite pode ser compreendido como uma figura liminar. A meia-noite, em diversas culturas, simboliza a passagem entre dois estados: o dia e a noite, o conhecido e o desconhecido, o cotidiano e o extraordinário. No contexto do Carnaval, essa liminaridade se intensifica, pois a festa já representa, por si só, uma suspensão temporária das normas sociais.

Na psicologia, especialmente sob a ótica da psicologia analítica, o personagem pode ser associado ao arquétipo do sedutor ou do trickster - aquele que transita entre regras e transgressões. O fascínio exercido pelo Homem da Meia-Noite revela desejos coletivos ligados à liberdade, ao mistério e à quebra de repressões sociais, características que emergem com força durante o período carnavalesco.

A mitologia oferece paralelos importantes. Figuras noturnas, elegantes e sedutoras são recorrentes em narrativas míticas ao redor do mundo, muitas vezes associadas a deuses, espíritos ou entidades que circulam entre mundos. No contexto afro-brasileiro, o Homem da Meia-Noite é frequentemente associado, no imaginário popular, a entidades ligadas às encruzilhadas e aos limiares, como Exu ou Tranca-Ruas, reforçando seu papel de mediador simbólico. A celebração de sua “data de nascimento” em 2 de fevereiro, dia dedicado a Iemanjá, também aponta para essa conexão com a religiosidade afro-brasileira.

Sob a perspectiva sociológica, a lenda cumpre uma função identitária. O Homem da Meia-Noite não pertence a um indivíduo específico, mas à coletividade. Ele é um símbolo de pertencimento cultural e de resistência da tradição popular frente às transformações urbanas e sociais. A rivalidade histórica com outros blocos, como o Cariri Olindense, reforça seu papel como marcador simbólico do início oficial do Carnaval e como elemento agregador da comunidade.

Símbolos presentes na lenda

Diversos símbolos estruturam a lenda do Homem da Meia-Noite. A cartola e o fraque remetem à elegância e a uma masculinidade idealizada, enquanto o dente de ouro simboliza poder, distinção e fascínio. A meia-noite representa o tempo do mistério, das assombrações e das transformações. O cortejo às donzelas simboliza a sedução sem posse, um desejo que não aprisiona, típico da lógica carnavalesca.

Ao reunir esses elementos, a lenda do Homem da Meia-Noite ultrapassa o campo do folclore e se afirma como uma narrativa complexa, capaz de revelar muito sobre os medos, desejos e valores da sociedade que a produziu. Em Olinda, ele não é apenas um boneco gigante: é a materialização de um mito urbano que continua vivo, renovando-se a cada Carnaval.

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